A Perfeita Alegria


O dia 13 de junho é o terceiro aniversário da morte de uma mulher sorridente, uma mãe corajosa que encontrou o segredo da felicidade em aceitar a vida como um presente.

(Bruno Mastroianni, “Histórias de fé”)

Há histórias que mudam completamente a realidade. Histórias que, enquanto falam de assuntos escuros e dolorosos, emitem uma luz inesperada. Uma dessas é Chiara Corbella Petrillo. Lembra uma daquelas pinturas onde, do encontro entre a sombra e a luz, as formas encontram cor e significado. Chiara faleceu, mesmo assim, sua história é uma história de vida. Ela assistiu à morte de dois de seus três filhos, mas sua história é feliz. Ela enfrentou uma terrível doença e, ainda, sua vida é um hino à alegria. Vamos por ordem. É o dia 12 de junho de 2009, na Igreja de “Sant’Angelo in Pescheria” em Roma, há um ar de festa. Não que haja sorrisos no rosto dos presentes, mas tem uma paz profunda e generalizada. No coração da Igreja, no altar, há um pequeno caixão branco. Um pouco mais adiante, uma mulher muito linda e seu marido ao lado. Eles estão cantando, ela toca o violino. E eles são Chiara e Enrico. Quando os dois se aproximam do caixão para levar os restos mortais da filha, Maria Grazia Letizia, que morreu depois de apenas 30 minutos de vida, alguns dos presentes irão dizer: “Eu senti uma inveja santa para a felicidade e o amor deste casal”. Como uma pessoa pode ser feliz no funeral de sua filha recém-nascida? É a partir desta pergunta, terrível e ao mesmo tempo doce, que devemos começar a conhecer a história de Chiara. Chiara conheceu Enrico durante uma peregrinação em 2002. Ela tinha 18 anos, ele 23. Uma história como tantas outras, com as inseguranças e os medos que os jovens sentem na frente do amor. Eles se deixam e voltam várias vezes. Ao longo dos anos o relacionamento deles com Deus amadurece junto à certeza de não estar juntos por um caso. De lá, o desejo de formar uma família. Eles se casaram em 21 de setembro de 2008. Jovens, bonitos, cheios de fé. Chiara ficou grávida. Como ela diria mais tarde, quase como um presságio “as pessoas pensaram que o Senhor sempre nos teria recompensado pela nossa fé, mas nós nunca vimos as coisas desta maneira.”

Não é compatível com a vida

 

            Depois de um ultra-som Chiara descobre que Maria Grazia Letizia, a criança que ela está esperando apresenta anencefalia, seu solidéu nãua repete como se estivesse tentando recusá-la. Ela fica sabendo da doença no pior momento: naquela consulta está sozinha, porqué Enrico está internado para a remoção de um cisto que se revela não grave. O medo toma conta dela, mas encontra a coragem para falar com seu marido pensando em Nossa Senhora: ela tinha que dar a José a notícia de um filho que não era dele. A reação de Enrico será a mesma de Chiara: “É nossa filha: iremos acompanhá-la até onde pudermos”. Marido e esposa se apoiam um a outra, formando uma espécie de cabana: estão preparados em aceitar a vida como ela é. Portanto, eles não prestam ouvido aos conselhos de alguns conhecidos e médicos de interromper a gravidez, de desistir, de abandonar: a criança está viva, e isto é suficiente para um pai e uma mãe dar-lhe a vida. Os 30 minutos de vida de Maria Grazia Letizia são de uma alegria indescritível. Quem estava presente pode adfirmar isso. Ela foi batizada, Chiara foi capaz de segurá-la, e também Enrico e os parentes. Chiara mesma diz, “se eu teria escolhido por um aborto, agora queria só esquecer, ao invés disso, eu nunca quero esquecer aquele dia”. Deixar ela nascer não era uma questão de princípio. Chiara decidiu dar à luz Maria Grazia Maria simplesmente porque ela estava viva. É o ato de uma mãe que dá a vida, porque ela aceita a vida como ela vem, como um presente que é recebido e acolhido.

A chegada de Davide Giovanni

Depois de alguns meses Chiara está grávida novamente. É um menino: Davide Giovanni. Mais uma vez, é quase difícil de dizer, a criança tem problemas. No começo parece só uma deficiência nas pernas, então, revela um problema mais sério: ele não desenvolveu alguns órgãos vitais. “Não é compatível com a vida”, mais uma vez a expressão fria chega como um julgamento glacial. Mas Chiara ed Enrico conhecem um fogo capaz de aquecer também a dor mais fria. Sua confiança em Deus é mostrada em toda sua força. Eles sorriem, e não dão ouvido àqueles que os desencorajam, falando de se render. Eles não se importam. Davide Giovanni, também, vai viver alguns minutos, o suficiente para receber o batismo e ser pego no colo por seus pais. Mesmo em seu funeral, os dois recém-casados mostraram- dizem aqueles que estavam presentes – ao mesmo tempo algo divino e humano, uma forma de profunda alegria, que não apaga a dor, mas a acompanha. Algumas dessas pessoas fazem uma declaração absurda: “aquele dia foi um dos melhores momentos da minha vida.” Parece uma frase muito pesada, mas é uma expressão que retorna muitas vezes quando se fala com aqueles que conheceram Chiara e Enrico. Chiara, três anos mais tarde, falará por sua irmã a mesma coisa, na última noite de sua vida. Sim, porque na história de Chiara, ainda há um monstro que vai aparecer. E, como todos os monstros, será no momento mais belo e, portanto, mais indefeso.

Francesco e o dragão

Chiara ficou grávida pela terceira vez. Desta vez, o bebê é perfeitamente saudável. Vai ser chamado Francesco. Há uma grande alegria na casa Petrillo. Ao mesmo tempo, como acontece na vida, juntamente com tanta alegria, há também um incómodo. Na língua aparece uma afta. Parecia nada. Mas a boca está lá, dói, os antibióticos não ajudam. Enquanto Francesco cresce na barriga, também o “dragão” – como Chiara chama mais tarde seu câncer – está crescendo dentro dela. Ela enfrentará uma primeira cirurgia muito dolorosa, enquanto Chiara ainda está grávida. Os médicos especialistas cortam um pedaço de língua. Será apenas a primeira de uma série de cirurgias, mas as próximas somente após Francesco nascer. Chiara sobre isso, mais uma vez, não tem dúvidas. Mesmo aqui não há um momento de heroísmo. Chiara quer viver, ele quer ser curada, mas também quer que Francesco viva. Com os médicos começa uma espécie de negociação para levar a gravidez mais pra frente possível, antes de induzir o parto e prosseguir com as operações e a quimioterapia. Francesco vai nascer saudável e lindo. Chiara agora, ao lado de Enrico, vai enfrentar o “dragão” cara a cara. Esta parte da história de repente se torna muito dolorosa e doce ao mesmo tempo. Logo Chiara descobre que se encontra no estágio terminal da doença. O “dragão” tem se expandido em seu corpo, mas não consegue quebrar o espírito: Chiara é sempre a mesma, forte, cheia de fé, até mesmo irônica. Quando seu olho direito será afetado pelo câncer, ela vai comentar com os amigos “também o olho quer a sua parte”. A foto dela sorrindo e magra, com o olho tampado, é o seu mais fiel retrato.

Um pedaço de céu

Escutar En3rico contar esta última parte da vida de Chiara é impressionante. Não parece uma historia de morte, mas um momento sereno, mesmo se cheio de dor. Como uma daquelas noites tranquilas e cheias de paz, onde queremos estar perto dos outros, em profunda confiança. Chiara e Enrico ficam até o fim, rodeados de amigos e dos pais, rezando, compartilhando, amando. Mesmo naqueles momentos o amor deles e entre eles – como sempre tinha feito – se tornou uma casa aconchegante. Aquela casa tornou-se um pequeno pedaço de céu.

“Você sabe que Enrico me ama de verdade?” Chiara disse nas últimas horas para sua irmã. Naqueles últimos momentos ele costumava dizer: “como você é linda.” Não era assim por dizer; quando ele conta isso, é o único momento da história em que Enrico não consegue segurar as lágrimas: “nessas condições, mesmo sentindo uma dor terrível, Chiara era linda.” Aqui tem um elemento fundamental que dá sentido a toda história. Chiara disse que o momento mais difícil de sua vida não era a doença ou a morte dos dois filhos, mas a dúvida e a incerteza que tinha vivido muitas vezes nos anos de noivado, antes de resolver se casar com Enrico. Este era o seu maior sofrimento. Como se, a partir do casamento, tudo ficou claro. E quando ela estava morrendo, explicou que a única coisa que custavade verdade deixar, era o seu amor, Enrico, seu marido. Chiara faleceu no dia 13 de junho de 2012. A sua não é apenas a história de uma mãe heróica. Em sua historia humana, tem sombras que parecem colocadas alí de propósito, para estar em contraste à luz de uma mulher, uma esposa, feliz.

Entre no link e confira